Era como se todos os problemas do mundo aparecessem de uma vez na minha
vida, tudo caminhava para trás, correndo;
A vida passava como o vento, despercebido. As pessoas, passavam como a
água na rocha, deixando marcas. E eu me pegava no mesmo lugar, apenas
observando tudo acontecer, sem fazer nada.
Uma guria do outro lado do bar fazia o mesmo que eu, porém ela me
observava e não ao resto, passei a observa-la também e ao cruzar os olhares,
ela se foi, assim sem mais nem meio mais, apenas se foi.
Deixei o mundo desabar, a vida desmoronar e quando já não tinha mais
nada a fazer, sai para espairecer. Na beira da praia, sentei na areia e acendi
um cigarro, então percebi uma sombra atrás de mim, me virei e me deparei com
aquela guria do bar:
- Te conheço?
- Não, mas já me observou.
- No bar, certo?
- E onde mais seria?! Você vive mais lá do que na sua própria casa.
- Pelo visto sabe muito sobre mim!
- Nada que todos que frequentam o bar não saibam.
Ela trazia um violão, então se sentou ao meu lado e começou a tocar,
músicas desconhecidas pra mim, mas que de certo modo me descreviam um pouco, ou
faziam sentido, não sei.
Ela tinha um olhar distante, como se estivesse fugindo dos pensamentos
ao cantar, seu olhar foi ficando vazio até ela não aguentar e lágrimas
percorrerem seu rosto, ela não disse nada, apenas deixou acontecer e continuou
cantando e tocando.
Ficamos ali boas horas, então levantamos e ela se foi, eu pensei em ir
atrás, em saber mais dela, ela me chamou a atenção, aquela atenção cafajeste,
mas eu simplesmente deixei-a ir.
Amanheceu e o interfone tocou...
- Quem é?
- Alguém que pensou em você e não conseguiu dormir.
- Hã?!
- Me deixa entrar vai, você sabe quem é.
Era aquela guria, abri a porta e lá estava ela com seu violão, eu
preciso cantar uma música pra você, pra você entender porque fugi de você no
bar e na praia, na verdade eu já fugi de você várias vezes, mas você nunca notou
ou lembrou, porque já estava bêbada. Fugindo da sua realidade amorosa
escancarada aos quatro cantos do mundo.
Então ela começou a tocar, uma melodia bem conhecida por mim, eu fiquei
assustada, nunca imaginei que ela cantaria aquela música, mas lá estava ela, implacável em
sua escolha e eu encantada ou desnorteada com tudo aquilo...
"Tinha uma menina nova na cidade
Ela tinha
tudo decidido
Bom, eu
vou dizer algo imprudente
Ela tinha
o mais maravilhoso sorriso
Aposto
que você não esperava por isso
Ela me
fez mudar o meu jeito
Com olhos
como por-do-sol
E pernas
que andavam por dias
Estou me
apaixonando
Mas estou
caindo aos pedaços
Preciso
achar meu caminho de volta ao começo..."
Ela terminou de cantar e ia saindo de novo, eu a puxei pelo braço e
perguntei:
- Por que foge de mim assim?
- Porque eu tenho medo dos meus sentimentos por você, eu nunca quis
sentir nada assim por você, você se conhece o bastante para saber o motivo.
- É ninguém quer estar nesse lugar, já me acostumei. Pode ir.
- Tudo bem, desculpa. Mas eu estou gostando mais de você a cada dia.
- ...
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